Entrevista: Uma igreja à favor da causa negra

“Sofremos críticas. Não são perseguições, mas algumas igrejas, preocupadas com esse movimento diferente, às vezes fazem comparações em relação à Cogic, dizendo que essa cultura afro-americana se parece mais com mística afro-brasileira”

O pastor Ivo Mariano nasceu em 14 de fevereiro de 1954, na cidade de Lençóis Paulista, interior do Estado de São Paulo. É casado com Dagmar da Silva Mariano e pai de Alexandre, Denise, Gustavo e Ruth. Se converteu em 1967, na Assembleia de Deus Ministério de Madureira na Vila Industrial, cidade de São Paulo. Em 2002, passou a fazer parte da Igreja de Deus em Cristo [COGIC] com sede mundial em Memphis/Tenesse – USA, ministério onde é pastor superintendente no Brasil, atualmente.

Com sua sede mundial localizada num bairro norte-americano predominantemente negro, a COGIC apoiou o movimento negro dentro da sociedade desde seu início; não sendo dessemelhante nos dias atuais. Aqui no Brasil, destaca-se por ser diferente de outras igrejas evangélicas por importar o estilo de música negra norte-americana, enfatizando suas raízes afro-americanas e chamando a atenção dos jovens da região.

Nessa entrevista, o Pastor Ivo Mariano nos conta como tudo começou, quais foram as causas que a Igreja apoiou desde o começo, suas lutas e conquistas. Também nos explica como a Igreja tenta incluir o negro na sociedade como ser humano, e não como uma raça diferente das outras, enfatizando que o evangelho não se limita à cor nem a qualquer outro tipo de diferença, mas acolhe a todos.

Sua conversão ao evangelho foi em uma igreja Assembleia de Deus, a qual frequentou por vários anos. Como foi essa mudança de denominação para fazer parte da Cogic?

Antes de vir pra Cogic, trabalhamos em uma missão eclesiástica, chamada OMGD (Organização Missionária da Graça de Deus). Trabalhamos fundação de igrejas com essa organização missionária, por volta de oito anos. Só em 2002 fizemos a aliança com a Cogic. Nunca tivemos a intenção de ser uma igreja puramente independente, então entendemos que seria a hora de passarmos a pertencer a uma igreja para estar associados à administração eclesiástica. Mas foi um grande desafio, mudar de uma cultura, uma forma de cultuar para outra forma de cultuar. A Assembleia de Deus vem de tradições europeias e suecas, com uma maneira diferente de cultuar. Embora seja pentecostal, é mais formal, mais tranquila. Já a Cogic, vem de uma cultura afro-americana, que é mais efervescente, espontânea e mais livre, mas dentro do próprio conceito do pentecostalismo. Foi algo muito contundente no primeiro momento, mas como entendemos que é um movimento pentecostal genuíno, não tivemos dificuldade em buscar a similação desse tipo de culto.

 A sede da Cogic está localizada nos EUA, no Memphis, Tennessee, onde a maioria da população é negra. Podemos perceber essa característica racial na Cogic brasileira também?

O Tennessee tem como forte característica a música, não só dos negros, como a influência do Elvis Presley por exemplo. Foi o que marcou o início da Igreja na época do Apartheid americano, com a separação entre negros e brancos, e os negros buscando sua afirmação social dentro de sua própria classe e política americana. Os negros se distinguiram culturalmente a partir dessa necessidade de sobreviver e se estabelecerem como cidadãos americanos. Foi uma afirmação muito forte de culturas distintas, e a igreja foi influenciada por isso. A Igreja acolheu esse movimento, abraçou o Apartheid e deu sustentação moral, espiritual, política, social, e em tudo mais que os grupos necessitavam. O próprio Martim Luther King fez seu último discurso em nossa igreja, a Igreja de Deus em Cristo, no Memphis. Então, a Igreja era a grande acolhedora e de certo modo promotora desse movimento negro. Mas, ao longo do tempo, a própria sociedade alterou muitos padrões, o que refletiu na igreja pois a sociedade vem para a igreja e da igreja vai para a sociedade, e fica esse círculo de repasse de um para o outro. Hoje, muitas coisas já mudaram. No Brasil, nós trabalhamos essa história do movimento negro na medida em que somos ensinados, para que não esqueçamos nossas origens, mas também não nos fechamos em nós mesmos, sentindo a influência de outros lugares e características além das norte-americanas.

Qual a relação entre igrejas originalmente brasileiras e igrejas norte-americanas?

Houve um tempo em que os pastores norte-americanos influenciaram tremendamente o movimento pastoral ministerial evangélico no Brasil, principalmente os pastores que estão na grande mídia. Grandes igrejas no Brasil surgiram desse movimento, principalmente as que pregam o “evangelho da prosperidade”, acendido pela força da mídia.  Hoje, essas igrejas já não precisam mais dessa influência global, e sim exportam a própria influência adquirida e consolidada de outrora. Hoje, a Igreja no Brasil já não representa mais essa relação exterior/interior, pois já ganhou sua independência.

A Cogic costuma sofrer preconceitos por ter características diferentes de outras igrejas?

Sofremos críticas. Não são perseguições, mas algumas igrejas, preocupadas com esse movimento diferente, às vezes fazem comparações em relação à Cogic, dizendo que essa cultura afro-americana se parece mais com mística afro-brasileira, ou seja, Umbanda, Candomblé, etc, principalmente por causa da música, o chamado “revival”. Isso acontece mais pelo fato de que querem evitar que os membros dessas igrejas migrem para cá. Mas nós não estamos preocupados com as outras igrejas, a não ser com a sã doutrina, aquilo que realmente é bíblico e aquilo que envergonha o evangelho, essa é nossa única preocupação.

Esse tipo de musicalidade é o que faz com que a Cogic tenha, em sua maioria, um público mais jovem?

Também, mas não só isso. Quando nós começamos, Deus nos prometeu que traria jovens, muitos jovens, e hoje mais de 90% de nossa igreja é formada pela juventude. Mas, sem dúvidas, essa musicalidade forte e avivada atrai. Isso não só na Cogic, como em todas as igrejas de movimentos neopentecostais, como a Renascer, Quadrangular, Batista Lagoinha, etc. A diferença em nossa igreja é a característica da música afro-americana, reconhecida mundialmente com grandes nomes, como Whitney Houston, Mariah Carey, entre tantos outros, e a nossa igreja tem essa musicalidade muito forte, pois é nossa raiz.

Quais as principais dificuldades da Cogic hoje?

A diferença. E isso é um paradoxo pois, a diferença é tanto uma dificuldade quanto uma arma.

O Coral Resgate, fundado pela Cogic, alcançou um grande reconhecimento no meio gospel. Isso tornou esta igreja mais conhecida?

Tudo contribui. O crescimento da nossa igreja se deu exatamente pelo trabalho conjunto. Todos que fazem parte de nossa igreja, levam a Cogic pra onde vão, então todos se tornam causa desse crescimento. Um dos grandes fatores desse crescimento da Cogic no Brasil é sim o Coral Resgate, que é nosso nome mais forte musicalmente falando. Outra contribuição é o próprio plano de divulgação da igreja, o site, as filmagens, as transmissões ao vivo, etc. Toda essa mídia digital levou a imagem da igreja, juntamente com o Coral Resgate e outros nomes como Jéssica Augusto, Luciano Claw e Melk Millar.

Em pleno século XXI, os negros ainda encontram dificuldades em ter sua cultura aceita pela sociedade? Qual o papel da Igreja nisso?

A prioridade da Igreja é o bem. Então, uma cultura que promova o bem, deve ser abraçada e apoiada ela Igreja. No caso dos negros, existe no Brasil uma dificuldade de espaço. A história deve ser mantida, mas sou a favor da evolução também. No Brasil, o negro é diretamente associado à feitiçaria, às vezes até dizendo que a Umbanda e o Candomblé são as religiões dos negros. Ainda persiste a ideia de que negro tem que ser macumbeiro, e isso não é uma realidade. Não vejo necessidade de carregar uma herança religiosa pelo simples fato de ser negro, eu acredito na liberdade. O papel da Igreja é promover o evangelho, para que assim, o negro possa ter o poder de escolher entre a religião de seus antepassados e o evangelho de Jesus Cristo. O negro é um ser humano, e a sociedade tem que avançar para que ele seja visto como ser humano, e não como “o negro”. Ninguém diz “o branco”, pois as pessoas não enxergam cor no branco, então por que enxergam cor no negro? Isso mostra que o preconceito ainda não foi destruído no interior das pessoas. Muita gente diz que a Cogic é a igreja dos negros, por nossa descendência afro-americana, mas a verdade é que somos a igreja do Senhor Jesus Cristo, onde não existe cor, raça, sexo nem qualquer outra distinção. Nós lutamos pelos oprimidos, ou seja, pobres, negros, mulheres, idosos, etc.

Via Rotineiras