Por uma Igreja menos politizada e mais social

A igreja evangélica vive um momento único no Brasil. Na política, ganha cada vez mais força com uma bancada formada por 78 representantes no Congresso Nacional, além do atual presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha (PMDB), ser membro da Assembléia de Deus, ministério Madureira, em Brasília.

A atuação política dos evangélicos [e toda bancada conservadora] tem acirrado as discussões acerca das causas LGBT e ampliado a repercussão sobre a intolerância religiosa; num clima de rivalidade que gera extremismos de ambos lados.

A atitude criminosa no caso da menina apedrejada ao sair de um culto Umbandista no Rio de Janeiro e os discursos incisivos de convocação a boicotes a marcas e produções televisivas beiram à estupidez, no mais simplório que eu possa qualificar. Uma atitude criminosa, no primeiro caso, e outra que se mostra duvidar que os fiéis tenham o mínimo de senso crítico.

Infelizmente, a grande maioria de nós [evangélicos] nos permitimos ser influenciados a tomar decisões que nem sempre refletem a Cristo e mais contribuem para escandalizar o evangelho e demonstrar um povo incapaz de conviver com as diferentes opiniões e credos. Portanto, incapazes também de agregar o “diferente”. E é claro que a mídia vai se pautar desse esteriótipo, dá ibope. Uma pena.

Não falo em aceitar o homossexualismo dentro do credo cristão, até porque isso seria negar a própria Palavra de Deus, que é a Bíblia; além de ser inconstitucional. Mas, saber conviver com o ser-humano que não confessa a mesma fé que você é o mínimo que se espera do comportamento cristão.

Façam todo o possível para viver em paz com todos.
Amados, nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: “Minha é a vingança; eu retribuirei”, diz o Senhor.
Pelo contrário: “Se o seu inimigo tiver fome, dê- lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber. Fazendo isso, você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele”.
Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem.
Romanos 12:18-21

Percebe? Além de procurar viver em paz com todos, a Bíblia nos fala em dar de comer e beber para os nossos inimigos. Um colega de classe ou de trabalho, homossexual, espírita ou ateu, não é meu inimigo e se fosse, teria que ajudá-lo [amá-lo]. Aliás, o que tenho mesmo são amigos e colegas homossexuais, ateus, gente completamente fora do padrão cristão, mas que sabem conviver com essas diferenças através do respeito mútuo.

Cresci ouvindo o conceito teológico de que Deus abomina o pecado, mas ama o pecador. Ou seja, apesar de todos nós sermos pecadores, Deus nos aceita [ama] como filhos e pela graça, através de Cristo, somos transformados em um novo-homem. Me pergunto se temos agido com essa receptividade. Se temos aproximado ou distanciado essas pessoas de Cristo.

Compreendo que atos como o realizado na última Parada do Orgulho LGBT em São Paulo geram revoltas nas redes sociais por ofender a fé de milhões de pessoas. Apesar de pessoalmente não ter incomodado tanto, por motivos que não vem ao caso nesse texto, creio que o desrespeito a qualquer tipo de fé [ou a falta dela] é reprovável. Parta do movimento homossexual contra os cristão ou ao contrário, só serve para acirrar ainda mais um conflito que nem deveria existir, e não para conciliar [as pessoas]. A pergunta que se deve fazer é: qual é o resultado benéfico dessas ações [de ambas as partes]?

Enquanto irmãos cheios de si “vomitam” palavras de forma inconsequente. Os LGBTs, demonstram no mínimo a falta de respeito com a fé alheia. Ao agirem assim, contradizem o próprio discurso de luta.

O que há de diferente em ambos comportamentos? Talvez, somente a ordem do papeis protagonistas se alterem.

Entendo que, na verdade, ocorre um conflito de conceitos, não de preconceitos. O cristão não pode ser considerado homofóbico por professar a sua fé [conceito] que é contrária a relação homossexual. Ao mesmo passo que o homossexual não deve ser tratado com hostilidade por não viver a fé cristã e entender que aquele modo de vida [conceito] é o melhor para si.

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Diante de todo esse cenário apocalíptico [no sentido da cumprimento das profecias Bíblicas], sinto a necessidade de um evangelho menos gritado e mais sociável. Menos corporativista, classista, político e mais engajado em boas obras, acolhedor, cristão.

Quando se vê um evangélico na política, este está mais envolto pela luta do poder e promovendo a sua instituição do que lutando por conquistas para a sociedade em geral. Infelizmente, resumindo-se a uma política do “nós contra eles”, como disse Ed René Kivitz, em uma excelente entrevista dada à BBC.

É justamente essa luta por poder que me incomoda e me deixa com um pé atrás com a essa mobilização política evangélica. Essa não deve ser a nossa luta. Como disse Ariovaldo Ramos em Não quero ser mais evangélico, “por que a pressão pelo crescimento? Jesus Cristo não nos ordenou a sermos uma Igreja que cresce, mas, uma Igreja que aparece: “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus. “(Mt 5.16).

Precisamos de uma igreja que apareça [resplandeça] e não que cresça [busque poder]. Apareça para a sociedade por suas boas obras na sociedade. Precisamos de uma Igreja que se faça visível, acima de tudo, pelo amor incondicional, pela auxílio ao necessitado, pela transformação de vidas. O mundo precisa de um igreja que vive e pregue a Boa Nova.

“Deixa eu viver a boa nova / que me faz bem / me deixa amar / sem perguntar a quem”  Boa Nova, Palavrantiga

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